Mitos da Periferia do Huambo

Por

Azancoth Ventura
Fernando da Conceição Cardoso Neto
José António Satchimuma

Falar de um povo não é apenas falar do seu aspecto social existe outra dimensão dos povos que são as suas crenças, os seus mitos os seus ritos, a sua manifestação cultural. Vamos aqui colocar alguns aspectos da cultura destas áreas peri-urbanas da cidade do Huambo, mas desde já declarar que a pesquisa é apenas indicativa e não pretende desde já ser exaustiva ou cabal da cultura destes povos.

São várias as formas de manifestação da cultura das quais temos:

Mitos

Estes são alguns mitos encontrados nos bairros da periferia da cidade do Huambo:

– Não se vai muito cedo ao rio, pois significa buscar a maldição (Benfica).

Esterilidade – Ninguêm atribui um nome de alguêm que não tem filhos ao seu filho para não atrair a mesma maldição. Quando morre uma pessoa sem filhos é enterrado como os outros. (S. José)

– Se o galo canta ao pôr do sol deve ser morto, porque o galo deve cantar ao nascer do sol (Benfica)

– Quem muito pede aos vizinhos, acabará comendo algo roubado. (Benfica)

– A mulher menstruada deve dormir sozinha, não deve acarretar água nem confeccionar alimentos.(Benfica)

Festas e Danças

Katita: Era uma dança da juventude realizada no final das colheitas. A festa começava na margem do rio (uma espécie de piquenique), cozinhavam e enquanto aguardavam pela comida os homens faziam instrumentos (como cestos, etc.) enquanto as raparigas faziam panelas de barro, peneiras, quindas (1),etc. No final da tarde depois da refeição levavam uma parte simbólica das suas colheitas e entregavam ao soba, dançavam e cantavam ao som da “pwita” (2) e dos batuques. (Chiva)

Esaka: Uma festa que um familiar faz aos seus antepassados, matava-se um boi e dançava-se a noite inteira. (Chiva)

Esaka: Uma dança, uma dinâmica e um jogo ao mesmo tempo, usa-se uma bola de borracha, colocando-se todos em círculo lançando a bola de um lado para o outro, quem não pudesse agarrar a bola perdia o lugar na roda e o que permanecesse até ao final recebia o “vopandwilako” uma aclamação por ser o vencedor do jogo. (S. Luís)

Olundongo: Dança feita com o chifres de boi que só os homens possuidores de gado podiam pegar no chifre. Era uma dança para gente abastada.

Olundongo: Festa tradicional que se faz no final de um óbito, normalmente para pessoas com mais posses e célebres (3), usam-se chifres de boi que só pode ser segurado por um “Ohwasi” homens ricos ou aquele que salvou algum membro da família num conflito doando uma cabeça de boi. (S. Luís, Chiva, Kamilikinhento)

Mangando: Uma dança só para os homens. (Chiva)

Kasanha: É uma espécie de dança, se fazem duas filas uma de homens e outra de mulheres, vão fazendo pares dão-se “olisemba” (4) e voltam para as suas filas. (Chiva)

Sunsumo – Era um batuque que só as velhas dançavam. (Kamilikinhento)

Ayele – Festa que se realizava depois de passar a época do cultivo, na fase da colheita do milho, em que os mais velhos de todos os bairros vizinhos convidavam-se e agrupavam-se num único bairro, aí bebiam comiam e dançavam, a festa começava de manhã e terminava no final da tarde, e os que vinham de áreas longínquas eram obrigados a passarem a noite no lugar da festa. (Kalomanda)

Onhatcha: Dança de mulheres mais velhas circuncisas. (S. Luí­s)

Tchilyapanga: Dança para as mulheres jovens não circuncisas. (S. Lu­s)

Kayongo: Festa de aniversário do óbito de um ancião. Quando é para mulheres dança o “Kavyula” e para homens “Sakalumbo”, “Mbumba” e “Muhundu” (5). (S. Luí­s)

A sucessão do Soba

Por mais pobre que fosse a pessoa, por mais que soubesse ou não escrever, isto não contava, o importante era pertencer à raiz ou linhagem do soba para poder reinar.

A partir da altura em que o soba era investido tinha uma menina especial que lhe confeccionava os alimentos e automáticamente deixava de passar as noites com a sua esposa dormindo em casas separadas. (Benfica)

Ritos de iniciação

Etapiko: Um ritual para entrar na Embala do soba para evitar situações desastrosas. Consiste na utilização de folhas de duas plantas medicinais: Limbwe e Xandala (6). (Benfica)

Evamba: É a etapa da circuncisão dos rapazes, onde eles aprendem a ser homens, aprendem a caçar ratos, a dançar, dão-se aulas para a vida, fazer roupa dos “€œOvingandji”€ (7),etc. Ainda hoje os rapazes vão a “€œevamba”€, porém, muitos dos rituais acima já desapareceram. (Chiva)

Antigamente a circuncisão arranjava um acampamento no meio da mata e os circuncidados faziam meio ano. Hoje já se fazem de outra maneira são circuncidados em casa e no tempo seco vão a Evamba para serem revelados os “okusengula”, onde se ensinam os costumes tradicionais. (S. José)

Outros divertimentos

Okanhe: Uma brincadeira e uma dinâmica que se fazia nos serões para passar o tempo. (Chiva)

Alambamento e Casamento

O processo de casamento de formação de uma nova famí­lia nuclear é também um facto que reveste-se de grande importância daí a multiplicidade de ritos, mitos, festas, etc. em volta deste facto. Vamos aqui também mostrar um conjunto de dados que nos darão a noção de como era e ou é formada uma nova família nas áreas periféricas da cidade do Huambo.

Se por alguma ocorrência dos jovens comecem a namorar a jovem conta a sua tia irmã do pai (8), esta por sua vez conta a mãe da jovem, esta apenas no quarto pode contar ao seu marido. O marido convoca uma reunião familiar e combina-se o dia do alambamento. No alambamento o jovem deve trazer para a família da jovem, 5 litros de aguardente, 1 litro de aguardente fechada, um fato para o pai da moça, três panos para a mãe, um sobretudo para o pai por causa da chuva e agora 2 grades de cerveja e 2 de gasosa e um montante em dinheiro. A jovem tem a obrigação de levar a mobí­lia: cadeiras e mesas, panelas, loiças, etc. (S. Luís)

Antigamente quando alguém quisesse se casar tinha que pedir opinião aos mais velhos seus parentes para poderem dar o seu parecer a respeito da família de determinada menina que se escolhesse para futura esposa e nestes casos a opinião dos mais velhos era imprescindí­vel e “ai daquele” que não seguisse tal opinião, iria assumir todas as consequências que dali adviessem. (Kilombo)

Antigamente o alambamento estava dividido em duas fases: A primeira fase tinha a duração de um ano, os pretendentes não podiam dormir juntos, sendo aquele espaço de doze meses reservado ao conhecimento mútuo das famí­lias. A família do noivo tinha que dar um litro de Óleo de palma, uma miçanga, uma enxada e um garrafão de vinho. (Kalomanda)

A segunda fase também tinha a duração de um ano, que consistia na arrumação de uma quinta com um porco assado e outro cozido, panos e lenços para a mãe da noiva, e um cabrito.(Kalomanda)

Naquela altura, uma moça bastava ter a idade adulta a família do rapaz (o tio a tia e os pais) vão ver se a famí­lia tem bons costumes, isto é, quais são suas doenças e como se comportam na doença, como são seus óbitos, seus hábitos, como se comportam nas alegrias e nas tristezas etc., só assim podiam sair para pedir a mão de uma rapariga .No acto do alembamento, levavam consigo 5 litros de “kassungueno” (9), panos, casaco, um cinto, um lenço e uma manta. Não entregavam dinheiro. Na altura do casamento tradicional a família do noivo vai buscar a noiva, matam animais dependendo das condições económicas galinha, porco ou cabra. Passam lá toda a noite, depois os familiares da noiva traziam um almofariz, pratos panelas tudo o que era preciso para uma futura dona de casa e iam ao encontro da sua filha, lá bebia-se “Kissangua” (10) e de lá eram sucessivas festas. (S. José)

“O casamento era uma coisa sagrada era precedido de três rituais nomeadamente: “€œokulomba, okutambela e okuvala”.”(Kalundo)

Okuvala – Consiste num acordo que fazia-se entre os familiares do noivo e da noiva, mas o devido ritual fazia-se normalmente antes da idade da puberdade da futura noiva, o mesmo tem o significado de ocupação, pois nenhuma famí­lia poderá o fazer sem o consentimento da família do futuro noivo. (Kalundo)

Okutambela – Consiste na apresentação oficial do noivo aos restantes familiares da futura noiva, isto para fortalecer o desejo feito na primeira fase. (Kalundo)

Okulomba – Este é o alambamento, a famí­lia do noivo deve trazer um casaco para o pai da noiva, um jogo de panos para a mãe. A mulher a sua virgindade é testada na noite do alombamento pelo noivo. Se for realmente considerada virgem uma das tias do noivo levará um lençol branco dobrado que irá apresentar as tias da noiva , e se porventura se der o caso da noiva não for virgem as tias do noivo levarão um lençol branco dobrado mas com uma perfuração feita de fogo, pois isto significará uma grande traição da família da noiva à família do noivo. (Kalundo)

Deslocações oficiais do soba

Chingufu: É a banda musical que acompanhava o soba no seu passeio e para o povo o toque do “Chingufu” era um mal sinal porque depois de uma semana morriam dois jovens de ambos os sexos. (S. Luís)

Nesta marcha quando o soba estivesse a passar todos devem cessar as suas actividades domésticas: Deve-se parar de varrer, pois senão o soba pode fazer continuar a varrer toda a vida ou até que o cure; deve-se parar de fazer tranças ou catar piolhos, senão continuarão nesta actividade sem parar até que o soba o cure; deve-se tirar a “Humba” (11) da cabeça, sob a mesma pena de permanecer na mesma actividade até que o soba cure, etc. (S. Luís)

Óbitos, Funerais e Ritos fúnebres

Nos óbitos usam-se batuques, danças, e cantos próprios (S. Luí­s)

Quando uma pessoa importante do bairro morresse realizava-se uma festa em se dançava e se tocava batuque, matando-se um boi no primeiro dia, e um outro no dia do funeral, seguindo-se mais tarde isto no terceiro dia a matança de mais um que era exclusivo para a famí­lia. (Kalomanda)

Se morre uma mulher no parto nenhuma rapariga (12) pode ir ao óbito sem que antes passe a um tratamento de Limbwe e Xandala. (Benfica)

Se uma mulher aborta, ao óbito só podem ir mulheres que já atingiram a menopausa, se forem mulheres que estejam em fertilidade activa correm o risco de abortar sempre, e só as mulheres que já atingiram a menopausa podem enterrar o feto. (Benfica)

Se alguém morre de faísca (trovoada) é necessário recorrer a um curandeiro (terapeuta tradicional) para retirar o cadáver, matando um cabrito e as pessoas que vão remover o cadáver merecem um tratamento especial, sendo depois enterrado ao lado do rio e não no cemitério comum: “Wanda Ko Tchitalale” (um acto de refrescamento). (Benfica)

Pessoa morta por trovoada: Se for na mata, é enterrada no mesmo sitio aonde morre. Se morre em casa levam o corpo para a beira do rio. A equipa que leva o corpo para o rio é preciso que haja alguém que conheça a tradição e purifica os presentes para não voltar a acontecer as mesmas desgraças. (S. José)

Nascimento e funeral de albino: Nestes casos é enterrado junto a um rio. No passado uma mulher que dava a luz um albino deixava-o cair no rio e era levado palas ondas para extinguir esta raça. (S. José)

Se morre um albino todos os Curandeiros da área reúnem-se enterram-no de dia e à noite vão removê-lo para servir de medicamentos daqueles que foram enfeitiçados. (Benfica)

Funeral de gêmeos: Transferia-se o óbito para uma outra casa a mãe não podia chorar, isto para não transferir a angustia, para que o outro não morra. (S. José)

O funeral de gêmeos é feito no cruzamento de dois caminhos. (Benfica)

O funeral de quem nunca teve filhos é realizado da seguinte maneira: compra-se um alfinete e uma agulha novos e espeta-se no umbigo do cadáver com o sentido de o amaldiçoar e não contagiar a família com este flagelo. (Benfica)

Havia o costume de na procissão fúnebre perguntarem ao cadáver “Helye wa kuponda?” (13) isto é, e os transportadores baloiçavam de um ao outro lado e acreditava-se que o cadáver mostrava o seu “assassino”. (S. Luí­s)

Funeral do soba

O Soba (Osoma) é a autoridade tradicional máxima do bairro, é uma figura importante, é sí­mbolo de sabedoria, e de unidade de um povo, resolve conflitos, representa a comunidade, um verdadeiro líder, seu funeral é especial, tem características peculiares apresentamos algumas peculiaridades mostradas pelas comunidades.

O funeral do soba era especial, o Osoma só era considerado morto depois que lhe retirassem a cabeça, antes apenas se anunciava que o soba estava doente e apenas os Olosoma (14) ou os Apalanga (15) podem entrar no seu quarto. Era sepultado à noite, transportado envolto na pele de um boi com patas e cabeça, o Olosoma não é enterrado, é sepultado nas pedras. A cabeça do soba é levada para o “akokoto” (16).(S. Luí­s)

O soba só era considerado morto depois de retirada a sua cabeça, que era guardada no “Akokoto” (17). O corpo do soba não sai pela porta, é quebrada uma parede do lado de trás da casa onde às escondidas fazem passar o soba envolvido na pele de boi, apenas os velhos podiam ir ao funeral. (Chiva)

Respeito pelos poderes tradicionais

Antigamente o poder tradicional era muito respeitado, ninguém tinha poder de desrespeitar as autoridades tradicionais. Os mais novos ajudavam os mais velhos em caso de trabalho que requerem um grande esforço. Como por exemplo: se por ventura, um mais novo cruzar pelo caminho com um mais velho a levar qualquer tipo de carga pesada (lenha), o mais novo tinha como obrigação recebe-la ao mais velho e leva-la ao destino. (Kalundo)

Culturas hoje

Em termos gerais não havia culturas devido o crescimento tardio do bairro. (kamilikinhento)

Grosso modo as tradições e rituais aqui apresentados são antigos, hoje uma grande parte deles já não são praticados, desapareceram, por diferentes causas ou factores que vamos aqui mensionar alguns referidos pelas comunidades:

  1. Umas desapareceram pela acção colonial que pediam impostos a todos os que praticavam danças tradicionais; outras desapareceram pela educação religiosa, eram consideradas estas danças de “não cristãs”. Outras pelo factor guerra, pois os mais velhos nunca tiveram no período de guerra sossego para preservar as culturas deixadas pelos nossos antepassados (Kalundo).
  2. As guerras que assolaram o paí­s. A evolução da própria sociedade, fez com que algumas pessoas deixassem de ir as “evambas” – circuncisão masculina; e ou deixassem de seguir certos hábitos antigos, por estarem muito próximas das cidades, aonde o nível de aculturação é demasiado acentuado e as tradições encontram motivo para desaparecerem ou ser esquecidas. Saliente-se ainda que os sobas eram escolhidos da mesma linhagem ou ainda nalguns casos era pelo facto de serem competentes. As crenças religiosas que apareceram (Chiva)
  3. Actualmente tudo o que tem haver de cultura e mitos quase inexistente devido a guerra, apenas preserva-se o método de resolução de problemas nos ondjangos. A cultura deve passar de geração a geração, pois com a paz no país os líderes tradicionais pensam em restabelecer ou renascer as culturas e os mitos que os antepassados deixaram. (Kapango)
  4. O hibridismo na origem dos moradores bem como o facto do bairro ser demasiado pequeno e recente, faz com que quase não exista muita coisa de cultura. (Kilombo)

De um modo geral as comunidades falam da colonização, a cristianização e a guerra como as causas do desaparecimento lento, contínuo e definitivo destes aspectos da cultura, porém é nossa opinião que embora verdade, outras acções faltam. Faltam acções de consciencialização, de educação, de transmissão destes costumes e hábitos para as gerações futuras, precisa-se sim é de uma revalorização da cultura, não apenas da zona periférica do Huambo, mas sim angolana, faltam políticas concretas de rebusca. Que este contributo fosse sinal de que precisa-se uma busca mais séria e profunda da realidade cultural de Angola.

Nota:

O presente trabalho foi gentilmente cedido por Azancoth Ventura da Development Workshop. O mesmo foi elaborado em 2003, quando os autores eram estagiários da DW/ESSO.

Huambo Digital dedica este texto a memória de José António Satchimuma.

1 – Um recipiente usado para transportar mercadorias pelas mulheres.

2 – Pwita é um instrumento musical tradicional

3 – Porque não basta ter dinheiro para pegar nos chifres, precisa de ser um homem piedoso, que não usa a riqueza que tem, unicamente para si.

4 – Duas pessoas de sexos opostos dão-se um toque frontal

5 – Kavyula, Sakalumbo, Mbumba e Muhundu são palhaços tradicionais.

6 – Nossa colega de Mobilização da DW Huambo, passou por este ritual antes de entrar na Embala, segundo a tradição a jovem que entra na Embala e não passa por este ritual e estiver a menstruar, não para a menstruação nunca mais. Este ritual ainda continua vivo.

7 – Palhaços tradicionais

8 – Pois a irmã da mãe é mãe

9 – Aguardente tradicional

10 – Bebida tradicional feita de farinha de milho, muito frequente nas casas dos habitantes do Huambo.

11 – Um recipiente utilizado pela mulheres para transportar os produtos à cabeça

12 – Rapariga que ainda não tem filhos

13 – “Quem te matou, mostra quem te matou, quem te feitiçou”

14 – É o plural de Osoma o que significa Soba o plural de epalanga.

15 – São uma espécie de emissários do Osoma.

16 – Akokoto é um lugar onde são depositadas as cabeças dos Olosoma

17 – Lugar onde são guardadas as cabeças de todos os sobas

 

 

 

 

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